Segunda-feira, 12 de Março de 2007

Escola - "SOS Professor" recebe 129 queixas em seis meses

Linha pretende dar resposta imediata aos professores e não permitir a desvalorização do problema. A ANP quer formar mediadores.




Os professores precisam de ajuda - cada vez é mais difícil controlar uma turma dentro de uma sala de aula. As denúncias de casos de violência têm-se multiplicado nas últimas semanas. Não sendo novo, o problema tem vindo a agravar-se mas a principal diferença é que os docentes só agora começaram a falar e a procurar apoio. No Porto, funciona há seis meses uma linha SOS e, de 11 de Setembro de 2006 a 2 de Março último, já recebeu 129 telefonemas, a uma média de uma queixa por cada dia de aulas. Os professores recebem apoio psicológico, pedagógico e jurídico.

A linha "SOS Professor" (808962006) foi criada pela Associação Nacional de Professores (ANP). A falta de respostas da administração educativa, tanto da tutela como dos conselhos executivos, determinou a necessidade de aparecimento do serviço. A denúncia de um caso de agressão a uma professora em Braga, há um ano, foi "a gota de água".

"O objectivo é dar resposta imediata aos professores e não permitir que o problema continue a ser desvalorizado", afirmou ao JN João Grancho. Por exemplo, referiu o presidente da ANP, quando um canal de televisão emitiu uma reportagem sobre violência feita com câmaras ocultas, a primeira reacção dos responsáveis da tutela foi resumir essas situações a casos pontuais.

Os conselhos executivos também tomam essa atitude frequentemente. Partem do princípio de que o professor deve resolver sozinho o seu problema, referiu ao JN uma docente que trabalha na linha SOS. Ou seja, o professor vê-se na maioria das vezes sozinho e sem apoio, fragilizado e desgastado por ter de enfrentar uma situação de conflito que se arrasta no tempo, manifesta medo de represálias por parte do agressor (aluno ou encarregado de educação) e receia a crítica dos seus pares por ter de admitir que tem um problema que não deveria ter. O ambiente de insegurança e receio, garante a ANP, exige a protecção inquebrantável da "intimidade da linha". A confiança tem de ser absoluta. A possibilidade de denúncia dos casos a que dão apoio foi a primeira barreira a ultrapassar, explicou João Grancho. E por esse motivo esta reportagem é feita com testemunhos não identificados.

Indisciplina nasce em casa

"Naturalmente conseguimos ensinar e educar na escola, mas a família tem de se envolver no processo. As escolas não têm portões mágicos à entrada", afirmou João Grancho. O presidente da ANP considera que deve existir um acompanhamento nacional da situação de violência e segurança, mas cada escola deve ter um plano adaptado à sua realidade.

"Não há soluções únicas", insistiu outra professora. E todos devem participar professores, alunos, famílias e pessoal não-docente. Para se enfrentar um problema que está a agravar-se é preciso perceber as razões da agressividade e os alunos, sublinham, trazem os problemas de casa. Por isso, os pais devem ser convidados "a aprender com os filhos a melhorar a escola". Psicólogos referem a educação permissiva da maioria das crianças portuguesas como um dos principais factores da indisciplina escolar: "Um menino que impõe regras em casa não aceitará na escola normas estabelecidas pelo professor". Já os pedagogos referem a pouca valorização do conhecimento. "As famílias não incutem nos seus filhos a necessidade de conhecimento e aprendizagem".



Por desejar não se limitar a aconselhar, a ANP elaborou um programa de formação em mediação de conflitos. O "Plano Aprendo para Vencer" pretende melhorar o ambiente escolar e, desta forma, os resultados de aprendizagem. São três as áreas-chave a promoção das competências sociais, o desenvolvimento das capacidades de mediação de conflitos e métodos de estudo. O documento já foi enviado para diversas escolas. A associação responsabiliza-se pela formação. Há vários cursos de mediação em Portugal para questões laborais e de família mas específico para os conflitos escolares só a Universidade Lusófona leccionou um, entre Outubro e Novembro, para 30 professores. O objectivo é "dotar a comunidade escolar" - professores, alunos, pais e pessoal não-docente - de "ferramentas que evitem, no dia a dia, o crescendo dos conflitos". "Um modelo articulado entre o punitivo e o cooperativo que permita aos professores gerirem a mediação". As iniciativas devem ser implantadas consoante a realidade de cada escola. Desde a inclusão nos currículos de actividades antiviolência à formação de professores ou recurso a técnicos exteriores. A mediação, por exemplo, pode inclusivamente ser feita por alunos. Os pais também têm que ter um envolvimento determinante.

"SOS Professor" recebe

129 queixas em seis meses

A história e a equipa por trás da linha

João Grancho teve a ideia. Sentiu que o problema da indisciplina e agressões a professores tinha de "sair da penumbra". A Linha SOS foi anunciada a 30 de Março de 2006 na sequência de um encontro luso-espanhol sobre a convivência na escola. "Os indicadores davam conta de um quadro de violência e indisciplina sistemática", explicou ao JN. A 11 de Setembro a linha começou a funcionar em parceria com a Universidade Lusófona do Porto e o apoio financeiro de uma seguradora. O objectivo é responder a todas as preocupações dos professores.



"A própria sociedade tinha de tomar consciência de que o problema existe e tem de ser tratado. Mal a linha entrou em funcionamento, os telefonemas dispararam e agora com a mediatização de novos casos voltam a aumentar", explicou.



Por trás da linha há uma equipa de atendimento e acompanhamento - uma psicóloga, uma psicopedagoga, dois especialistas em mediação de conflitos e dois professores "muito experientes". Há também o gabinete jurídico, composto por três pessoas. Consoante o problema, os professores são encaminhados para os técnicos e acordam com os especialistas um plano de intervenção. O apoio inclui processos de mediação e consultas. É preciso ter a certeza de que o professor está capaz psicológica e emocionalmente para voltar à escola.


Truques para manter a ordem

Conseguir manter a ordem na sala de aula, fazer os alunos respeitar as regras estabelecidas, controlar "comportamentos desajustados", o desrespeito e o barulho constante são as dificuldades mais frequentemente colocadas pelos professores à Linha SOS. "É fundamental que o professor perceba o ambiente em que o aluno está inserido e o valor que a família dá à aprendizagem", começa por afirmar ao JN a psicopedagoga da ANP. Em quase todas as turmas há um aluno desestabilizador, um "líder" que consegue impor a sua vontade e desafia constantemente o professor. Esse aluno, explica, luta constantemente pelo poder. O docente, aconselha, deve identificar esse "líder" e conceder-lhe esse poder mas de forma construtiva. Por exemplo dar-lhe mais tarefas e fazê-lo participar mais nas aulas. Os bons comportamentos devem ser enfatizados e os maus devem ser resolvidos "numa conversa aberta depois da aula terminada". O professor deve conseguir criar empatia, momentos de informalidade e estabelecer uma relação de confiança mútua com esses alunos. Por outro lado, os mais indisciplinados têm necessidade de se sentir ouvidos e compreendidos. E devem referir-se mais às situações e não ao aluno.

Sancionar não é suficiente

"A autoridade do professor só será efectiva se for reconhecida", insiste João Grancho. Na ANP, a opinião é unânime para se reduzir a violência e a indisciplina nas escolas não basta reforçar as sanções no Estatuto do Aluno. Aliás, sublinha uma das professoras, as punições já existem e não resultam - "Os alunos suspensos vão para casa no máximo dez dias e quando voltam à escola cometem os mesmos erros". Daí, defendeu que seja necessário criar-se mecanismos de acompanhamento no retorno dos alunos e no acolhimento de professores agredidos. Todos os membros da equipa SOS contactados pelo JN defenderam a formação dos professores na mediação de conflitos e a existência nas escolas mais problemáticas de equipas especializadas. Só assim, insistiram, a comunicação será restabelecida e os índices de indisciplina descerão. Medidas, alegam, mais urgentes do que a revisão do Estatuto do Aluno. As escolas, argumentou João Grancho, devem ser dotadas de mecanismos de prevenção e as famílias têm de passar a ter um papel mais determinante e presente no desenvolvimento escolar. "O professor vai ter de utilizar outro tipo de estratégias, pois um aluno dominante em casa também o vai querer ser na sala de aula", alegou a psicopedagoga.

adelino meireles e Alexandra Inácioin www.jn.sapo.pt

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publicado por paulozananar às 08:27
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